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Solar das Indias

O ‘SOLAR DAS ÍNDIAS’ mostra as suas instalações renovadas em abril. Um espaço de entretenimento e cultura bem no centro da cidade do Porto e nos fundos do Teatro Rivoli. Nestas duas noites de glamour, desfilarão pelo pequeno palco deste vosso Solar, um corpo de baile como há muito não pisava tais tabelados, mágicos artificiosos e até o homem mais forte do Bonfim nos apresentará os seus garbosos números, cheios de força e subtileza de movimentos. E para vos receber, estarei eu, Abelardo, amante desta vida sem saudades da próxima. Venham preparados, com dinheiro no bolso e baterias carregadas, pois a partir da meia noite a tendência é amanhecer.      

 

Estreia

6 de Abril  2018 às 21h30, Teatro Municipal Rivoli (Porto)

 

Um espetáculo da · Confederação - colectivo de investigação teatral

Coprodução · Rivoli Teatro Municipal

Pantomineiros · Abelardo (Miguel Ramos), Banqueira (Rosário Melo), Sr. Milhões (Ricardo Soares), Sr. Pitanga (Luís Ferraz), Pinote (Bernardo Sarmento), Sophia Brandão (Cláudia Gomes), Ega (João Duarte Piçarra)

Magnífico corpo de baile · Heloísa (Débora Barreto), Preciosa (Filipa Catarino), Lizete (Lilas), Serena (Sofia Zehi)

Estrela convidada · Amber Rose Bangkok (Miguel Batista)

O Homem mais forte do Bonfim · Alexandre Calçada

Madame Catacumba · Soraia Lopes (texto e personagem integrantes do espetáculo CIRCO, escrito e encenado por Linda Rodrigues)

Mágicos artificiosos · VALMAN (Manuel Alves) e JOFERK (Fernando Coimbra)

Disc Jockey · Simone Francisco

Dramaturgia e Encenação · Miguel Ramos

Cenografia e Figurinos · Hernâni Reis Baptista

Mestre Costureira · Andreia Sarmento

A menina das maquilhagens · Samanta Duarte

Vídeo · Ricardo Soares

Iluminotécnico · Miguel Ângelo Carneiro

Design Gráfico · Maria João Macedo

Pessoa que faz perguntas · Regina Guimarães

Produção · Confederação

Agradecimentos · Balleteatro Escola Profissional, CIMACA, Clube Fenianos Portuenses, Fernando Braga, Grupo Musical de Miragaia, Plebeus Avintenses, Officina de Teatro Popular, Ana Rebelo, Igor Urban, Maria Luísa Malato, Pedro Sarmento, João Teixeira…

 

Classificação Etária · M14 Dur. aprox  · [1h30min]

UMA CARTA DO SR. ABELARDO PARA O SR. TIAGO GUEDES, ATÉ HOJE INÉDITA, DATADA DE PRINCÍPIOS DE 2017

Lhe escrevo após um período de profunda reflexão em torno da possibilidade de o senhor receber o nosso Teatro nas suas instalações. Desde o primeiro encontro, em 2014, para falarmos sobre as possibilidades dos ‘Milagres da Fátima’ até ao acontecimento de uma estreia em 2018 fez-se um tempo largo, muito largo para o universo efémero do Teatro.

Como é algo que me diz enormemente, estive ao longo destes anos a ler sobre este fenómeno e a conversar longamente sobre uma ideia de Milagre. Uma ideia muito bela, porque nos indica o “para além de”.  No caso de uma crença como Fátima, os ‘factos’ no patamar espiritual não são relevantes, todo o conceito de pós-verdade contemporâneo é revelador do tanto que nos fará apaziguar as almas. Eu vejo em tudo isto um paralelo em Maquiavel, quando se fala dos meios e dos fins. Você não?

Há questões objetivas no meio disto. E essas são as questões sentido, absolutamente quantificáveis - o porquê de ser no seu espaço, e nesse tempo. 

E é sobre tudo isto que lhe escrevo, para que se faça em forma de Teatro.

Ao longo destes três anos, que separam o nosso primeiro encontro à presente data, decidi por cá, repensar a forma de olhar sobre os ‘Milagres da Fátima’. Quero caminhar entre o simbólico e o pragmático. Para perceber uma época foi-me fundamental mergulhar em Raul Brandão e na sua troupe. Decidi chamar ao meu divertimento “Baltazar Moscoso”, e utilizar o texto “Doido e a Morte” como matriz para a minha re-escrita.  

Raúl Brandão, no “Doido e a Morte”, descreve uma determinada realidade social do seu tempo. Destaca a relação do indivíduo com a sociedade. Realça o homem no seu existir concreto. Interessa-se pelo exercício da liberdade e pelos meios de desenvolvimento das suas possibilidades. Poderá verdadeiramente falar-se de liberdade? O homem dos olhos tortos sustentou que «ser consciente é ser livre» e que «sem liberdade, não há homem». A peça de Raúl Brandão remete intensamente para a procura da valorização da própria individualidade ou para o reconhecimento do primado do indivíduo sobre o geral. Os pensadores existencialistas, como Sartre ou Brandão, relevaram a experiência interior ou subjetiva do indivíduo. Quando o cidadão comum se resigna, não faz mais do que colocar-se sob a ordem dos valores morais instituídos. A resignação comporta sacrifício e dor, conduz à ideia central de que a vida é «sofrimento em si mesma». Será o sofrimento o elemento motor da existência?

E foi sobre esta capa que o Estado Novo se laureou. Sem Kierkegaard, sem Brandão, sem Sartre. Teve um olhar de Maquiavel e uma antropofagia de Oswald de Andrade, talvez este seja um dos fatores para tão longa resistência.

O que é que tudo isto nos diz hoje? Temos as bombas que se refletem numa fé. Temos o tal conceito de pós-verdade que nos aproxima de uma ideia de Milagre. O sofismo é a nota dominante, e o mais caricato é que eu não me ponho contra nada disto. Interessa-me apenas perceber este fenómeno. Um fenómeno que define uma cultura e uma identidade não pode ser olhado com desdém, mas pode ser olhado com humor.

Com as maiores cordialidades, Abelardo.

 

UMA CARTA DO SR. ABELARDO PARA O SR. TIAGO GUEDES DATADA DE MARÇO 2018

Caríssimo Sr. Tiago Guedes. Um ano após a carta que lhe escrevi, as questões existenciais passaram-me. Contratei umas bailarinas muito engraçadas que levarei para o seu Teatro de modo a dar alegria a todos aqueles que aí forem dia 6 e 7 de abril. Encontrei um decorador de interiores de seu nome Hernâni, das bandas de Vila do Conde, um bocado dispendioso mas de gabarito. Pedi-lhe para ornamentar o seu Teatro, espero que fique de agrado. Ele está a trabalhar com uma modista de Gaia para que o nosso corpo de baile tenha uns trajes bem garbosos e distintos. De resto, levarei os artistas que você já conhece. São números de agrado certo, que fazem com que os bilhetes se vendam que nem papos secos. Quanto aos capitais, lhe agradeço a feitura do nosso acerto no final de cada noite, para eu poder dar seguimento às minhas obrigações com os artistas.

Sem mais, me despeço, desejando uma boa Páscoa para si e para os seus.

Abelardo

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